A Voz da Diocese


O princípio do cuidado para superar a indiferença

A Igreja sempre celebrou a Páscoa do Senhor no primeiro dia da semana. Aos poucos, ela passou a dar solenidade maior ao domingo anual que coincidia com o da Ressurreição. Não demorou, organizou um tempo de preparação da grande solenidade, chegando aos 40 dias da quaresma, como tempo de conversão e penitência, seguindo mais de perto a Cristo até o Calvário, para com Ele participar de sua vitória sobre a morte e o pecado, com a renovação do nosso relacionamento com Deus, com os irmãos e os bens da criação divina, respectivamente, a oração, a esmola ou a solidariedade fraterna e o jejum.

No Brasil, há mais de 50 anos, na quaresma, temos a Campanha da Fraternidade que, a cada ano, nos propõe uma realidade na qual realizar a verdadeira conversão. Por sua natureza de precioso meio de evangelização, na caminhada quaresmal, a partir de um aspecto da realidade em que a fraternidade é ferida e com o objetivo permanente de comprometer, em particular, os cristãos na prática do amor e da justiça, exigências centrais do evangelho, a Campanha da Fraternidade nos ajudou a refletir sobre a renovação interna da Igreja, a renovação do cristão e a Igreja diante da realidade social, denunciando o pecado social e promovendo a justiça. Neste último aspecto, já nos propôs a reflexão sobre a família, o trabalho, as migrações, educação, fome, terra, excluídos, encarcerados, drogas, Amazônia, segurança, tráfico humano, casa comum, biomas, violência, políticas públicas.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade nos convida a consideramos o dom fundamental da vida, com o qual todos temos compromisso intransferível de defesa, promoção e cuidado.

Para o cuidado com a vida, sagrada e inviolável, desde a fecundação até seu fim natural, nos apresenta a figura do bom samaritano que soube interromper o seu caminho, por ver, sentir compaixão e cuidar do ferido à beira do caminho.

A Campanha nos propõe também aquela que, neste nosso País, encarnou de forma exemplar a figura do bom samaritano, Santa Dulce dos Pobres, que, conforme a apresentação do texto base da Campanha, era mulher frágil no corpo, mas fortaleza peregrinante pelas terras de São Salvador da Bahia de todos os Santos, presença inquestionável do amor de Deus pelos pobres e sofredores, testemunho irrefutável de que a vida é dom e compromisso, que via, se compadecia e cuidava.

Que ela interceda por nós no céu para podermos defender e promover a vida, que sofre, entre outras ameaças, a fome, as guerras, a violência, os desastres ambientais e sociais, a iníqua distribuição dos bens da terra, o tráfico humano.

Que Santa Dulce, o anjo bom da Bahia, interceda por nós e nos ajude a realizar os objetivos desta Campanha – Despertar para o sentido da vida como dom e compromisso, recriando relações fecundas, na família, na comunidade e na sociedade, à luz da palavra de Deus; retomar o sentido da vida proposto por Jesus nos Evangelhos; cultivar a compaixão, a ternura, a cultura do encontro e o cuidado como exigências fundamentais da vida para relações sociais mais humanas, superando a indiferença; promover e defender a vida, desde a fecundação até o seu fim natural, rumo à plenitude.

Que a figura do bom samaritano, assumida exemplarmente por Santa Dulce dos Pobres, nos ajude a viver a ousadia de, neste mundo tão acelerado e indiferente, interromper a rotina, fazer uma pausa para rever as opções de vida e começar, sem demora, a cuidar uns dos outros, porque Deus cuida de todos.

Pe. Antonio Valentini Neto – Administrador Diocesano de Erexim.

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